DESTERRO,TERÇA-FEIRA, 1 DE FEVEREIRO DE 2011
27 de janeiro de 2011 | N° 9063
SÉRGIO DA COSTA RAMOS | Sérgio da Costa Ramos
Lageano do litoral
Passou nesse 15 de janeiro o 46º ano da morte do jornalista Rubens de Arruda Ramos, nascido no dia 3 do mesmo mês, em 1912. Vivo, teria 99 anos. Era o segundo de dez irmãos sete mulheres e três homens, um lageano do litoral.
“Ju”, como era saudado pelos amigos, era um homem simples, despojado, um “índio” de Lages que tanto manejava a faca para talhar uma costela como para eviscerar um peixe.
Tinha uma grande cultura, jurídica e literária, cultivando os clássicos portugueses e franceses. Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão. Victor Hugo e Edmond Rostand, cujo Cyrano de Bergerac sabia de cor.
Declamava, divertido, o verso em que o espadachim narigudo espicaçava seu detrator, respondendo a um ataque direto do Conde Valvert:
– Palhaço, insolente, estúpido, grosso!
E Cyrano, como se o outro houvesse se apresentado:
– E eu, Cyrano Saviniano, Barão de Bergerac!
Como Cyrano, usava sua coluna de jornal como uma arma irônica. Amava igualmente a Ilha de Santa Catarina e a sua Lages natal. E por elas era correspondido. Está ligado à Ilha de uma maneira intensa e apaixonada. Quando, mesmo depois da ponte Hercílio Luz, políticos desejaram transferir a capital para Curitibanos, ou mesmo para a sua Lages, foi visceralmente contra. Defendeu em sua coluna a consolidação da Ilha como a única e insubstituível capital dos catarinenses, com cuja história ele hoje se confunde.
Em 1935, jovem estudante de Direito, liderou, aos 23 anos, com seus colegas da primeira Faculdade de SC – a Alfaiataria do Didico, instalada num sobrado da Felipe Schmidt – o “levante” para a modernização do transporte coletivo, que na Capital ainda se valia dos vagões puxados a tração animal, o “bonde a burro”.
Em 1912, Porto Alegre já exibia os seus bondes elétricos, enquanto Floripa, em plena década dos revolucionários anos 1930, ainda cultivava aquela velharia pouco asseada. Os estudantes resolveram “afogar” aquela vergonha. Jogaram os bondes n’água, ao lado do Miramar. Sem os arreios, os burros trotaram pelo resto do dia, pavlovianamente, aliviados dos vagões, pela habitual trilha Centro-Agronômica. Até que uma alma caridosa do povo lhes oferecesse alfafa e os recolhesse ao campo: afinal, os burros eram os menos culpados pelo atraso...
Em vida, Rubens doou 5 mil volumes para a Biblioteca Barreiros Filho, do emérito professor de Português, de quem era muito amigo e com quem cultivava a primeira estrofe dos Lusíadas: – “Última flor do Lácio, inculta e bela/ És, a um tempo, esplendor e sepultura”...
Viveu como morreu, em harmonia com os amigos – e até com os inimigos. Secretário-geral do PSD, nunca aceitou um cargo público. Preferiu fazer carreira jurídica no Banco do Brasil, onde entrou por concurso. Exercia a política pelo jornalismo partidário dos tempos “românticos”, assinando a famosa coluna “Frechando” com a efígie do arqueiro Guilherme Tell, “Tal” no pseudônimo. Texto lido urbi et orbi por pessedistas e udenistas.
Era homem sempre cordial com adversários civilizados como o ex-governador Jorge Lacerda, a quem fez “leal oposição”. Nos anos 1920, no Colégio Catarinense, Lacerda dera lições de boa democracia, respondendo sobre a origem grega das palavras “demos”, povo, e “kratos”, governo. Em 1937, quando o PRP de Plínio Salgado e Lacerda flertou com o fascismo, Rubens postou telegrama a Jorge: “Demos e Kratos mandam lembranças...”
À beira de seu túmulo, discursaram os líderes da governo, Armando Calil, e da oposição, Fernando Viegas:
- De Bem com o Bem e de Mal com o Mal – é o resumo da tua vida, Rubens... – discursou Calil.
E é esta a inscrição que hoje preside o seu busto na Avenida Beira-Mar, que leva o seu nome.
O nome de um lageano à beira do campo azul, coxilha marítima que ele amou como amava os campos de Lages.








